A linha 27, que liga o centro de Guaraciema ao distrito de Águas Claras, tem quarenta e dois quilômetros de estrada, onze paradas e uma ponte de madeira. Seu Wanderley dirigia aquele ônibus desde 1985. Pegava a condução no pátio às cinco da manhã, dava a partida às cinco e meia em ponto, e fazia o trajeto quatro vezes por dia, seis dias por semana. Se os passageiros da linha 27 sabiam uma coisa na vida, era isso: o ônibus das cinco e meia nunca atrasou.
O segredo, dizia ele, era conhecer cada curva da estrada pelo som do motor. Sabia onde passar pelo buraco sem balançar, onde reduzir antes de subir a serra, onde o sol bate na cara e cega. Sabia também, e isso ninguém ensinou, o nome da maioria dos passageiros, os dias em que cada um pegava o ônibus, e os problemas que cada família enfrentava. Passageiro de linha rural é quase família, dizia. Todo mundo narra a mesma novela.
Nos quarenta anos de estrada, Seu Wanderley viu de tudo. Levou grávidas para a maternidade, em corridas que viraram nascimento no meio do caminho, três vezes. Transportou o time de futebol da vila, que ganhou o campeonato regional em 1997. Levou, no mesmo ônibus, a caixa de som da festa junina e o caixão do Seu Sebastião, em dias diferentes, nunca ao mesmo tempo, porque o respeito mandava. Nunca deixou passageiro para trás, nem na chuva, nem na greve.
Em 2019, a empresa mudou a frota. Os ônibus novos vinham com ar-condicionado, câmera, computador de bordo. O novo gerente, um moço de trinta anos formado em administração, decidiu padronizar o trajeto: horário fixo, paradas fixas, sem exceção. Foi um susto na linha 27, que tinha as suas tradições. Seu Wanderley foi chamado na sala duas vezes por causa de uma parada extra, na frente do rancho do Seu Nei, onde morava uma senhora acamada que acenava todo dia para o ônibus. Ele explicou com calma: a dona é acamada, vê o ônibus passar e acena. A parada não é para embarcar. É para acenar. O gerente não entendeu, mas o assunto morreu.
O tempo passou. Seu Wanderley completou setembro de 2025 com setenta anos, e a empresa, por lei, teve que marcar a aposentadoria. Ele recebeu a notificação numa quinta-feira, junto com os parabéns de sempre. Ficou quieto. Não contou para ninguém na linha. Só avisou em casa, para a esposa, que chorou, e para o filho, que morava longe, que riu e disse que já estava na hora de sossegar. Sossegar, pensou o velho. Depois de quarenta anos, seu corpo não sabia como.
O aviso de que a última viagem seria na sexta-feira, 10 de outubro, correu a vila em dois dias. Não se sabe quem contou. Numa linha rural, as notícias andam de bicicleta. Quando o ônibus das cinco e meia parou na primeira parada daquela sexta, Seu Wanderley encontrou a plataforma cheia. A dona Zenaide, de noventa anos, estava lá, com o lenço na cabeça, esperando. Seu Wanderley abriu a porta e perguntou, sem entender, o que estava acontecendo. A velha entrou, sentou no primeiro banco e respondeu: hoje eu vou até o fim da linha.
Em cada parada, o ônibus ia enchendo de gente que normalmente não pegava aquela condução. Gente de outras linhas, gente de outro horário, gente que já tinha carro, gente que morava em outra cidade e veio de propósito. Havia professores, motoristas, estudantes, a freira do convento, o dono do bar, e um senhor de terno que Seu Wanderley não reconheceu e que, mais tarde, se apresentaria como o menino que ele levou na corrida do parto de 1993.
Na parada extra, na frente do rancho do Seu Nei, o ônibus parou, como sempre, e lá estava a dona acamada, numa cadeira de rodas, na porta, com a mão levantada, acenando. Seu Wanderley acenou de volta, e dessa vez, em vez de arrancar, apagou o motor. Desceu, atravessou a estrada, tomou a mão da velha entre as duas mãos dele e ficou ali um instante, sem dizer nada. Depois voltou, subiu, ligou o motor, e seguiu viagem com os olhos molhados e uma expressão de quem tinha acabado de receber o pagamento de quarenta anos de trabalho.
No fim da linha, em Águas Claras, o pátio estava enfeitado com bandeirinhas e o coro da igreja esperava. Fizeram uma missa curta, discursos curtos, e entregaram ao motorista um álbum de fotografias, feito pelos passageiros, com fotos de todos os anos: o ônibus velho, a ponte, os rostonas na janela, os nomes escritos à mão embaixo de cada foto. Na última página, uma lista de mais de trezentos nomes, organizada por parada. Em cima da lista, uma frase: quanto custava a passagem? Nada, quando era o senhor dirigindo.
Seu Wanderley aposentou-se de verdade, mas não parou de ir ao pátio. Toda sexta-feira, às cinco da manhã, aparece para tomar café com o novo motorista, um moço de vinte e oito anos que ele mesmo treinou. Fica até a hora da partida, olha o ônibus sair, acena, e volta para casa. Quando alguém pergunta por que ele faz isso, ele responde a mesma coisa, sempre com a mesma calma: é que o ônibus das cinco e meia não pode atrasar. E enquanto eu ainda estiver vivo para conferir, ele não vai.