A casa amarela da rua das Acácias estava vazia havia oito meses, desde a morte do Seu Osório. Os três filhos combinaram de se encontrar num sábado para esvaziar, limpar e colocar à venda. Não havia herança de valor, apenas a casa, velha, com reboco caindo e um quintal grande que sempre foi motivo de briga entre os vizinhos, que diziam que aquilo era mato demais para um terreno só.
Cláudio, o mais velho, chegou cedo com caixas e etiquetas. Denise trouxe café e uma lista. Marcelo, o caçula, chegou atrasado, como sempre, e ficou encarregado do quintal, porque era o único que não tinha alergia a poeira e aranha. A ideia era simples: cada um levava o que quisesse, o resto ia para doação, a casa ia para o corretor na segunda-feira.
O quintal era um mundo à parte. Havia uma mangueira enorme, um pé de jabuticaba, um banco de cimento, e um muro alto, coberto de hera, no fundo. Marcelo começou a cortar o mato com o facão e, perto do muro, bateu em algo duro. Achou que fosse pedra. Era uma caixa de metal, enferrujada, enterrada a meio metro, com uma tampa presa por arame. Ele chamou os outros dois, que vieram correndo achando que era dinheiro escondido.
Não era dinheiro. Era um maço de cartas, amarrado com barbante, dentro de sacos plásticos que o tempo tinha colado. Umas cinquenta, talvez mais, todas endereçadas à mesma pessoa: Dolores Mendes, cidade de Santa Rita do Passa Quatro. Nenhuma tinha selo. Nenhuma tinha sido postada. Em cima do maço, um bilhete escrito com a letra firme do pai: para queimar depois que eu morrer.
O silêncio caiu no quintal. Dolores era a professora de piano do bairro, a mulher que o Seu Osório mencionava uma vez por ano, sempre com a mesma frase curta: uma boa moça, muito estudiosa. Nenhum dos três filhos sabia de nada além disso. A mãe tinha morrido havia dezesseis anos, e o pai nunca tinha dado sinal de ter guardado qualquer história antiga no peito.
Cláudio quis queimar as cartas ali mesmo, cumprindo o pedido. Denise achou um desrespeito. Marcelo, que era o mais quieto, sentou no chão, abriu a primeira carta e começou a ler em voz alta. Era de 1978, escrita quando o pai tinha vinte e três anos. Contava sobre o dia em que viu a moça pela primeira vez, carregando partituras na chuva. As páginas seguintes contavam o namoro, os piqueniques, o anel comprado e devolvido, o medo do pai dela, o casamento marcado e desfeito.
A quinta carta era diferente. Seu Osório escrevia que ia se casar com outra pessoa, uma moça chamada Aparecida, que os pais dele tinham escolhido e que era uma boa mulher. Dizia, em letra trêmula, que amava a Dolores, mas que não tinha coragem de desobedecer à família, de atravessar a cidade para buscar a moça, de enfrentar a vergonha. Pedia perdão. Prometia que, se um dia tivesse filhos, deixaria que escolhessem os próprios caminhos.
Dali para frente, as cartas viraram diário. Eram cartas que o pai escrevia a cada ano, na data do aniversário da Dolores. Contava da vida: o primeiro filho, a padaria, a segunda filha, o filho caçula, os batizados, as contas apertadas, a esposa querida que Deus levou cedo. Falava da Dolores sem rancor, com uma ternura que nenhum dos filhos conhecia. Na carta de 2003, escreveu: hoje te vi de longe no mercado. Você estava de azul, com um livro na mão. Fintei que não vi, por respeito. Ainda te amo, mas já não é dor. É saudade.
Denise chorava sem parar. Cláudio, que tinha mandado queimar, estava sentado no banco de cimento, com as mãos no rosto. Marcelo leu a última carta, de 2024, escrita poucos meses antes da morte do pai. Era curta: Dolores, se algum dia alguém encontrar estas cartas, quero que saiba que a vida com a Cida foi boa, e que os filhos saíram melhores do que eu. Mas foi você a coragem que eu não tive. Obrigado por ter existido. Queime as cartas. Ou não. Você sempre foi mais sábia.
Os irmãos passaram a tarde discutindo o que fazer. No fim, decidiram: não queimariam. Colocaram tudo numa caixa nova, catalogaram as datas e resolveram procurar a Dolores, que pelos cálculos do Marcelo deveria ter uns oitenta anos. Descobriram, com a ajuda da internet e de uma telefonista da cidade de Santa Rita, que ela morava numa casa de repouso, com a memória já meio embaralhada, mas com as mãos ainda boas no piano.
Foram os três, num domingo. Dolores recebeu a caixa no colo, reconheceu a letra antes mesmo de abrir, e ficou olhando o maço por um longo tempo. Não leu nenhuma carta. Apenas passou a mão por cima, como quem acaricia um animal de estimação muito velho. Depois pediu licença, sentou ao piano da sala de repouso e tocou, de memória, a música que o Seu Osório mencionava em todas as cartas: o terceiro movimento de uma sonata que ele dizia que era a cara dela. Quando terminou, virou-se para os irmãos e disse, sorrindo: agora sim a história tem fim. O resto, o resto era só o meu lado. E a casa amarela, que ia ser vendida, ganhou mais uma condição no anúncio: o quintal não se vende.