A biblioteca do Seu Agenor

O bairro do Cascalho nunca teve biblioteca, escola de verdade, nem praça. Tinha uma linha de ônibus que passava duas vezes por dia e uma igreja de madeira que enchia no domingo. Quando Seu Agenor se aposentou da lavoura, aos sessenta e dois anos, a mulher morreu e os filhos foram embora. Ele ficou sozinho na casa de três cômodos, com uma bicicleta velha encostada no muro e uma caixa de livros herdada do irmão, professor, que tinha morrido cedo.

A ideia nasceu de uma frase da neta, numa visita de férias. A menina, de nove anos, perguntou por que não tinha livro no bairro dela. Seu Agenor não soube responder. Passou a noite acordado, olhando a bicicleta, e no dia seguinte começou a construir. Soldou uma caixa de metal na garupa, pintou de azul, colocou tampas de madeira e encaixou prateleiras. Nascia ali a Biblioteca do Agenor, a primeira do bairro, sobre duas rodas e um selim.

Bicicleta com caixa de livros na garupa

Começou pequeno: trinta livros, emprestados no caderno, com prazo de quinze dias. Na primeira semana, ninguém parou. Na segunda, uma criança levou um gibi. Na terceira, a professora da escolinha pediu dois romances. No fim do primeiro mês, Seu Agenor já tinha uma fila. Rodava o bairro três vezes por semana, de segunda a sexta não, porque segunda era dia de arrumar os livros. Passava na porta das casas, tocava uma sineta de metal e esperava. Quem quisesse, trocava. Quem não devolvia, ele não cobrava. Ia lá de novo e emprestava outro.

O acervo cresceu com doações. Gente da cidade mandava caixa pelo ônibus. A delegacia doou revistas. O colégio estadual mandou um lote de didáticos. Quando a biblioteca passou de quinhentos livros, a bicicleta não aguentava mais, e Seu Agenor comprou um carrinho de mão, desses de feira, e depois uma carrocinha de sorvete adaptada, com toldo e tudo, pintada de azul-bandeira. Os meninos do bairro se revezavam para empurrar. Era o evento da semana: carrocinha azul na esquina, sineta tocando, crianças correndo.

Seu Agenor manteve a biblioteca por trinta e um anos. Nunca cobrou multa, nunca fez ficha, nunca recusou empréstimo. No caderno, anotava nome, livro e data, com letra enorme. Perdeu livros, claro. Perdeu coleções inteiras, tombo que doía no peito. Mas nunca desistiu. Dizia que livro perdido é livro lido, e livro lido vale mais do que livro guardado. No fim da vida, já com noventa e três anos, não pedalava mais. Empurrava a carrocinha a pé, duas quadras, três, com a ajuda dos netos de criação. Morreu numa terça-feira, dormindo, com o caderno de empréstimos aberto na mesinha ao lado da cama.

O bairro ficou órfão. O enterro foi o maior que o Cascalho já viu, com a carrocinha azul na frente do cortejo, carregada de livros, empurrada pelas crianças. A prefeitura chegou a prometer uma biblioteca de verdade, com prédio, placa e funcionário. Passaram-se os anos, o prédio não veio. Os livros ficaram guardados no galpão da igreja, em caixas, esperando. A carrocinha, encostada num canto, tomou chuva, ferrugem, poeira, e virou lembrança.

Foi a neta, Kátia, agora professora de literatura, quem resolveu mexer naquele baú de memórias. Aos quarenta e um anos, voltou ao bairro para organizar as caixas. Foi um trabalho de seis meses, com catálogo digital e tudo. Descobriu coisas que ninguém sabia. Seu Agenor tinha um caderno secreto, atrás dos outros, com observações sobre os leitores. Não fofoca: anotações de quem lia o quê, de quem tinha dificuldade com letra pequena, de quem chorou com um livro e pediu para levar outro igual. Havia frases como: Marcos disse que nunca leu um livro inteiro antes. Dei um de capa dura. Voltou em três dias, leu tudo.

Na última página, uma anotação de 2019, dois anos antes de morrer: ideia para o futuro. Transformar a carrocinha em biblioteca fixa, de esquina, pequena, com telhado e sino. Deixar para o bairro. A Kátia mostrou o caderno na associação de moradores e, em vez de prédio grande, propôs o que o avô sonhava: uma casinha de madeira de dois metros por três, com a carrocinha restaurada na porta, como porta-estandarte. A prefeitura doou o material. Os moradores construíram em mutirão, nos fins de semana. Seis meses de trabalho, sem pressa.

A Casinha da Leitura do Cascalho foi inaugurada num sábado, com sineta, forró e bolo de fubá. O acervo passou de quatro mil livros, entre os antigos e os novos. Funciona na base da confiança, como sempre: caderno, prazo, devolução na palavra. A carrocinha azul, restaurada, virou estante, no meio da casinha, com uma placa na lateral: aqui começou. Kátia dá aula de reforço ali, de graça, para as crianças do bairro. E todo dia 7 de cada mês, em memória do avô, alguém pega a carrocinha no colo, sai a pé pelas ruas, toca a sineta e distribui livro de porta em porta. O bairro chama isso de a ronda do Seu Agenor. Ninguém falta. Livro, no Cascalho, deixou de ser luxo. Virou herança.