O advogado abriu a pasta devagar, como quem teme o que está dentro. Os três irmãos estavam sentados na mesma mesa pela primeira vez em sete anos. Do lado de fora, a casa do avô esperava com as janelas fechadas.
O testamento era curto. A casa, o quintal e a oficina ficariam para apenas um dos três. O nome do escolhido não estava escrito. Em vez disso, havia uma instrução estranha: morem juntos por trinta dias e a casa dirá quem fica.
Clara achou aquilo um absurdo. Rodrigo riu e disse que era pegadinha do velho. André, o mais novo, ficou quieto. Era sempre assim entre os três: um reclamava, outro ria, e o terceiro apenas observava.
No primeiro dia, discutiram por causa dos quartos. No terceiro, discutiam por causa da comida. No sétimo, já não discutiam mais, porque a torneira da cozinha quebrou e ninguém sabia consertar. Foi André quem consertou.
No décimo segundo dia, encontraram na oficina uma caixa com ferramentas sem uso e um caderno de anotações. A letra era do avô. Cada página descrevia uma consertada, um conselho, uma pequena história sobre um dos três netos.
Na página vinte e três, o avô contava sobre a vez em que Clara chorou escondida porque tinha perdido o emprego. Na trinta e um, sobre o dia em que Rodrigo devolveu o troco errado no mercado. Na quarenta e seis, sobre o silêncio de André, que sabia de tudo e nunca contava nada.
Eles leram o caderno inteiro naquela noite, em voz alta, um revezando com o outro. Ninguém percebeu quando o riso virou silêncio, nem quando o silêncio virou vontade de ficar.
No trigésimo dia, o advogado voltou. Perguntou quem ficaria com a casa. Os três se olharam. Foi Clara quem respondeu: nós. O advogado consultou uma última página que ninguém havia visto e sorriu. O avô tinha previsto aquela resposta e deixado as três chaves. Nunca houve disputa, apenas um velho teimoso que sabia exatamente o que estava fazendo.