A vendedora de flores da rodoviária

Dona Neusa vende flores na rodoviária de Campo Belo há quarenta anos. Tem o ponto fixo em frente à plataforma 4, num carrinho de metal verde, com baldes de rosas, cravos, girassóis e um vaso de margaridas que nunca foram vendidas, mas sempre estavam lá, repostas. O carrinho abre às cinco da manhã, antes do primeiro ônibus, e fecha depois do último, às dez e meia da noite. Neusa conhece as pessoas pelo horário: o pessoal das cinco são os trabalhadores, os das sete são os estudantes, os do meio-dia são as mães com crianças, os das dez são os despedidores de última hora.

Ela vende mais do que flor. Em quarenta anos, Dona Neusa virou testemunha de milhares de despedidas e reencontros — e, algumas vezes, sem querer, virou a pessoa que mudou o rumo da história. Foi ela quem advertiu uma moça de dezenove anos que ia embora com um rapaz desconhecido: ficou com o bilhete na mão, olhou a menina, olhou o rapaz, e falou a frase que repetia nesses casos: filha, flor é barata, mas despedida arrependida é caro. A moça desistiu da viagem, voltou para casa, e hoje é dentista, com filhos, e manda um vaso de rosas para Dona Neusa todo mês de maio.

Carrinho de flores em rodoviária

Foi ela também que, num dia de chuva, viu um senhor de terno indo embora, com passagem na mão, e percebeu, no bolso do paletó, a aliança pendurada num cordão. Perguntou, sem jeito, se era viagem de volta ou de ida. O homem disparou a contar: mulher doente, discussão tola, casa vazia. Dona Neusa escolheu um girassol, entregou na mão dele e cobrou o preço da flor com uma frase: o ônibus é o único lugar de onde a gente volta quando quer. O homem não embarcou. Voltou para casa. Foi ele quem, anos depois, comprou o carrinho novo para ela, aposentado, sem nunca dizer que era um agradecimento.

Existe também o contrário: gente que ela não conseguiu segurar. Um rapaz que foi tentar a vida no exterior, chorando, com a passagem comprada com o dinheiro de três anos. Neusa vendeu o último cravo, disse boa viagem, e ficou olhando o ônibus partir. Seis anos depois, o rapaz voltou, rico, dono de restaurante, com uma mala cheia de presentes. Perguntou pela venda de flores, achando que não existia mais. Encontrou o carrinho igualzinho, a velha igualzinha, um pouco mais curva, e comprou a dúzia inteira. Contou que guardou o cravo seco na carteira todo esse tempo. Ainda tem.

O carrinho tem gavetas, e nas gavetas existem papéis. Dona Neusa guarda tudo: bilhete de ônibus, carta, recado de criança, foto pequena, comprovante de dinheiro emprestado. Explica que as flores vêm com história, e história não se joga fora. Tem um caderno, de capa dura, com nomes e datas, e anotações do tipo: 1998, mulher de vermelho, comprou 3 rosas e chorou; 2002, rapaz de bicicleta comprou margarida; 2010, moça comprou girassol, disse que ia pedir o namorado em casamento; 2011, os dois voltaram, casados. O caderno virou uma espécie de registro civil sentimental da rodoviária.

Agora, com setenta e oito anos, Neusa decidiu se aposentar. O corpo reclama: varizes, pressão, joelho ruim. Marcou a data: fim do ano. A notícia vazou, virou matéria no jornal local, e no dia seguinte a rodoviária recebeu visitas que ninguém esperava. Gente que passava no carrinho só para contar. A moça de 1997, hoje médica, que quase embarcou com o desconhecido. O senhor do girassol, viúvo, que passou a comprar uma flor por semana desde a morte da esposa. O rapaz do exterior, com a carteira de sempre. Em uma tarde, foram dezessete pessoas contando histórias. A administração da rodoviária, que nunca tinha dado bola para o carrinho, decidiu fazer uma homenagem.

No último dia de trabalho, enfeitaram a plataforma 4 com flores de papel, puseram um banner, chamaram a imprensa. Neusa chegou às cinco da manhã, como sempre, e levou um susto. Fez o que nunca fazia: sentou num banco da rodoviária, de frente para o carrinho, e deixou as clientes venderem flores sozinhas. Foi um dia estranho e feliz. No fim da tarde, a prefeitura anunciou que o carrinho ficaria na rodoviária, em exposição, como patrimônio da cidade, e que uma nova vendedora, escolhida e treinada por Neusa, continuaria o ponto — uma moça de trinta anos, que ela mesma tinha ensinado a arrumar as rosas.

Antes de ir embora, Dona Neusa deixou um envelope em cima do balcão, com o caderno de capa dura dentro e um bilhete para a sucessora: este caderno é o registro do ponto. Flor vende-se a qualquer um. Mas presta atenção no que a pessoa diz na hora de escolher. É aí que a gente sabe o que ela precisa ouvir. As margaridas continuam no vaso, sempre repostas, e ninguém entende por quê. A nova vendedora entende. Foi Neusa quem contou: as margaridas eram da filha dela, que morreu aos seis anos, em 1986, e passaram a ser a flor dos nomes sem resposta, daquilo que a gente compra para dizer sem falar. Quem sabe, sabe. Quem não sabe, compra uma rosa. Na rodoviária de Campo Belo, toda flor tem função. E a plataforma 4, dizem os funcionários, ficou mais silenciosa desde que Dona Neusa parou. Mas as flores, essas não pararam nunca.