O concurso da cidade pequena

Todo mês de julho, Santa Clara do Oeste parava para o concurso de bolos da praça. Não era um evento grande, mas era o evento. A cidade inteira ia, as mesas compridas ficavam na sombra das árvores, e o juiz, sempre um confeiteiro de fora, provava tudo com cara de quem julgava um crime. Naquele ano, pela primeira vez em muito tempo, as duas filhas da dona Marlene estavam inscritas.

Sara e Joana não se falavam desde o velório da mãe, três anos antes. Uma briga por causa da casa, umas palavras ditas na hora errada, um orgulho grande demais dos dois lados. Desde então, se encontravam no mercado e viravam o rosto. Santa Clara é pequena, mas cabe muito silêncio dentro dela.

Bolo caseiro sobre a mesa

A dona Marlene tinha deixado um caderno de receitas, metade escrito a lápis, metade censurado por manchas de manteiga. As duas herdaram uma parte. Sara ficou com as páginas ímpares, Joana com as pares, divisão feita no cartório, entre documentos e assinaturas, como se receita fosse terra.

Sara inscreveu o clássico bolo de fubá com goiabada, aquele que a mãe fazia nos aniversários. Joana inscreveu o bolo de cenoura com cobertura de chocolate, o preferido das tardes de domingo. Nenhuma das duas sabia da inscrição da outra até a lista ser pregada no mural da prefeitura. Quando souberam, cada uma pensou em desistir. Nenhuma desistiu.

Nos quinze dias seguintes, a cidade acompanhou tudo como novela. Na padaria, os comentários eram os mesmos: será que elas vão se falar? A Dona Cida, que trabalhava no caixa havia trinta anos, dizia que aposta era pecado, mas que apostava na Sara. O Seu Nilton, dono do bar, dizia que bolo de cenoura ganha qualquer disputa com juiz de fora. A cidade se dividiu em times.

Sara treinou sete vezes. Acordava às cinco, antes do sol, e a cozinha cheirava a fubá até o meio da manhã. Joana treinou oito, por teimosia, porque não queria ser a irmã que treinou menos. As duas usavam o avental da mãe, cada uma o seu, divididos na mesma partilha. Nenhuma das duas tinha percebido que os aventais eram um par.

No dia do concurso, a praça amanheceu cheia. As mesas ficaram lado a lado, e as pessoas fingiram que foi coincidência. Sara chegou de vestido azul, Joana de vestido branco. As duas se olharam por um segundo que parecia um ano. Nenhuma falou. Começaram a bater os ovos quase no mesmo ritmo, e quem estava perto jura até hoje que os gestos eram iguais.

O juiz provou os dois bolos por último, em silêncio, anotando coisas no papel. A praça inteira prendeu a respiração. Ele levantou a cabeça e disse que era a primeira vez em vinte anos de concurso que não conseguia escolher. Empatou os dois primeiros lugares, algo que nunca tinha acontecido. A cidade explodiu em palmas antes mesmo de qualquer uma das irmãs reagir.

Sara e Joana receberam o troféu juntas, sem jeito, cada uma segurando um lado. Foi aí que a Joana falou a primeira palavra: a mãe ia rir disso. Sara respondeu com os olhos cheios: ela já está rindo. As duas choraram abraçadas, no meio da praça, com a cidade inteira olhando e fingindo que não estava.

Meses depois, descobriram que a dona Marlene havia anotado no fim do caderno, na última página, depois das receitas: para as minhas filhas, a receita é uma só, dividam o bolo, não a vida. Nenhuma das duas tinha chegado até a última página porque achavam que a outra ficara com ela. Naquele domingo, fizeram o bolo juntas, na cozinha da casa que tanto brigaram para decidir a dona. Comeram os dois, em fatias generosas, enquanto combinavam o que fazer com os quartos vazios.