O bilhete premiado da feira

Seu Onofre ia à feira da Vila Nova toda quarta e todo sábado, religiosamente, desde que enviuvou. Não comprava muita coisa: dois quilos de tomate, meio quilo de cebola, um maço de cheiro-verde e, às vezes, uma dúzia de ovos caipiras da banca da dona Lúcia. Gostava do cheiro da feira, do barulho dos carrinhos, dos engraxates gritando promoção. Dizia que ali se sentia acompanhado sem precisar falar com ninguém.

Foi num sábado de sol forte, entre a banca de temperos e a barraca de pastel, que ele viu o papel dobrável no chão. Um pedaço de papel amassado, sujo do pisar de meia feira. Seu Onofre se abaixou por hábito, porque sempre achava que alguém precisava daquilo, mesmo sem saber o que era. Desdobrou. Era um bilhete de loteria, ainda válido, com os dez números preenchidos à mão.

Bilhete de papel dobrado na mão

Ele guardou no bolso sem dar importância. Na segunda-feira, quando foi na lotérica pagar a conta de luz, mostrou o bilhete para o rapaz do caixa, por curiosidade. O rapaz passou no sistema, digitou duas vezes, arregalou os olhos e chamou o gerente. O bilhete estava premiado. Não era uma fortuna de novela, mas eram oitocentos e setenta mil reais, dinheiro suficiente para virar a vida de qualquer pessoa daquela vila.

A notícia correu a rua em vinte minutos. Quando Seu Onofre saiu da lotérica, já tinha gente na porta de casa. Um vizinho sugeriu que ele dividisse com todos. Outro disse que dinheiro achado era dinheiro dado por Deus. Um terceiro, mais afoito, calculou em voz alta quanto ele poderia emprestar, sem que ninguém tivesse pedido nada. Seu Onofre trancou a porta, sentou na sala e ficou olhando para o bilhete em cima da mesa. Pensou na mulher, que passou a vida economizando moeda por moeda num vidro de conserva.

Na terça-feira, ele fez o que ninguém esperava. Pegou o ônibus, foi até a cidade vizinha, entrou na loja onde o bilhete tinha sido emitido e perguntou se eles guardavam o registro de quem comprava. A moça da loja estranhou, mas consultou. O bilhete havia sido comprado na quinta-feira anterior, por um moço que pagou em dinheiro, usando o troco de uma compra pequena. Não tinha nome. Só tinha um horário: 14h07.

Seu Onofre colou um aviso na porta da lotérica, depois na padaria, depois no poste em frente à feira. Perdido um bilhete de loteria na quinta-feira, na banca perto da pastelaria. Quem perdeu pode procurar o Seu Onofre, com informações sobre os números. A vila achou que ele tinha enlouquecido. Achar quase um milhão e ficar procurando o dono? Alguns riram. Outros, secretamente, passaram a respeitar aquele velho de um jeito diferente.

Na sexta-feira à tarde, um rapaz de dezenove anos bateu na porta de Seu Onofre, com a testa suando e as mãos tremendo. Trabalhava como entregador de gás e tinha comprado o bilhete com a primeira comissão do mês. Perdeu no dia seguinte, revirou o quarto, chorou, escondeu de todo mundo para não virar piada. Sabia os números de cor: eram as idades dos pais dele e as datas de nascimento dos sobrinhos. Contou tudo, um por um, sem olhar no papel.

Seu Onofre ouviu em silêncio. Depois foi até o quarto, pegou o bilhete na gaveta, e colocou na mão do rapaz. Não pediu nada em troca. Nem um centavo. O rapaz ajoelhou, chorando, e o velho o levantou pelo braço, meio sem jeito, dizendo que quem chora no chão de casa alheia acaba caindo. Ficaram os dois na cozinha, tomando café, sem falar muito.

A história correu a cidade inteira, e depois o estado. Um canal de televisão quis entrevistar Seu Onofre. Ele recusou. Um vereador apareceu querendo dar uma medalha. Ele agradeceu e não foi na cerimônia. O que ele aceitou, semanas depois, foi outra coisa: o rapaz do gás, que passou a visitar o velho todo sábado, com a mulher e depois com o filho recém-nascido, que ganhou o nome de Onofre. Os dois viraram família sem nenhum parentesco, dessas famílias que a vida inventa.

Quando perguntam ao Seu Onofre se ele se arrependeu de não ter ficado com o dinheiro, ele sempre responde a mesma coisa, encostado na porta da feira, com o saquinho de tomate na mão: dinheiro a gente conta, mas história de homem é a única coisa que a gente deixa. E eu já tenho a minha.