Seu Manoel tocava sanfona na praça de Boa Vista dos Anjos desde os treze anos. Começou com o pai, que ensinou os primeiros acordes num instrumento emprestado, e nunca mais parou. Casou ao som do próprio forró, criou três filhos ao som do próprio forró, e nos últimos quarenta e dois anos, só tocava ao lado de dona Fia, que cantava sentada numa cadeira de palha e conhecia mais versos de Luiz Gonzaga do que qualquer livro.
Quando dona Fia morreu, num domingo de fevereiro, Seu Manoel guardou a sanfona no armário, atrás das sacolas do mercado, e disse que tinha acabado. A cidade tentou de tudo. O padre pediu. Os amigos insistiram. Os netos choraram. O velho era educado com todos, agradecia, mas não voltava. Aos sábados, a praça ficou estranha, como uma igreja sem missa.
A ideia surgiu na farmácia. A turma de sempre, que tomava café no balcão todas as manhãs, decidiu que ia fazer um show de despedida para o sanfoneiro. Não um show qualquer. Um show com todos os músicos da região, com panela de baião no meio da rua, e com a cadeira de palha vazia, no centro do palco, para ocupar o lugar de dona Fia.
Ninguém sabia se ele iria. O convite foi entregue no dia do aniversário dele, num papel escrito à mão pela professora da escola municipal. Seu Manoel leu, dobrou o papel, agradeceu, e não disse se ia. Durante duas semanas, a cidade preparou tudo em segredo, que na cidade pequena significa que todo mundo sabia, menos ele. Foram ensaios na garagem do Mercadinho São José, com sanfoneiros, zabumbeiros, violeiros e as crianças da escola, que aprenderam três músicas.
No sábado marcado, a praça amanheceu enfeitada com bandeirinhas. A cadeira de palha foi colocada no centro do palco, com uma flor de papel em cima. Às sete da noite, o palco estava cheio, a praça lotada, e o assento vazio brilhava sob a luz. O mestre de cerimônias, nervoso, fez o discurso que ensaiou, cheio de palavras bonitas, e terminou chamando Seu Manoel.
Ele não estava. O silêncio caiu sobre a praça como um pano. Passaram-se os primeiros minutos, as pessoas trocando olhares, alguém no fundo pedindo para começar sem ele. Foi aí que a sanfona começou. Vinha do fundo da praça, do meio do povo. Seu Manoel atravessou a multidão tocando, com a sanfona no peito, sem pressa, e a praça abriu caminho em silêncio.
Ele subiu no palco, olhou para a cadeira de palha, parou por um instante que pareceu durar uma vida. Depois puxou o banquinho, sentou ao lado da cadeira vazia, ajustou a alça e disse, baixinho, no microfone: Fia, hoje é pra você. Vocês me desculpem, mas vou começar pela nossa. E tocou Não me Deixe Sozinho, a música que ela cantava no fim de toda apresentação, há mais de quarenta anos.
A praça inteira cantou com ele, do começo ao fim, gente que nem sabia que sabia a letra. Depois vieram as outras músicas, os sanfoneiros da região um por um, as crianças da escola com a apresentação ensaiada, a panela de baião, tudo. Seu Manoel tocou quatro horas e meia, sem parar, com uma energia que ninguém lembrava ter visto naquele velho.
Quando o show acabou, perto da meia-noite, ele ficou no palco, sozinho com a cadeira de palha, olhando a praça se esvaziar. O neto mais novo subiu para buscar, com medo de encontrar o avô chorando. Encontrou ele rindo, passando a mão no braço da cadeira, dizendo que a Fia estava lá a noite inteira, cantando junto, e que agora podia parar de verdade, porque a despedida tinha acontecido do jeito certo.
Nos anos seguintes, Seu Manoel voltou a tocar. Não toda semana, como antes, mas nas datas importantes: São João, aniversário da cidade, casamento dos netos. A cadeira de palha continua no palquinho da praça, com uma placa pequena que a prefeitura mandou colocar: aqui cantou dona Fia. Quem passa por Boa Vista dos Anjos em noite de festa, e ouve a sanfona velha tocando, sabe que, em algum lugar das músicas, tem uma voz de mulher cantando junto. Pelo menos é isso que a cidade toda jura que acontece.