A ponte de madeira

A ponte do Córrego Fundo é de madeira, tem quarenta metros, e liga o bairro da Serra ao centro de Itaoca. Foi construída em 1962 por mutirão dos moradores, reformada em 1988, e desde então ninguém nunca fez nada além de trocar uma tábua ou outra. Os engenheiros da prefeitura diziam que ela estava condenada, que precisava de projeto novo, de concreto, de licitação. Diziam isso todo ano. Todo ano a ponte continuava lá, firme, aguentando caminhão de gado, ônibus escolar e o caminhão do laticínio.

Na enchente de janeiro, o córrego subiu seis metros, coisa nunca vista. Levou cercas, plantações, duas casas da beira, e arrancou a ponte nova de concreto que estava sendo construída ao lado, com recursos federais, um ano antes de ficar pronta. Levou a estrutura de aço, as vigas, os cabos, tudo. E a ponte velha de madeira, que todo mundo chamava de condenada, resistiu. Ficou de pé, atravessada no meio da correnteza, salvando a única passagem do bairro.

Ponte de madeira sobre o rio

Depois da enchente, a ponte virou celebridade. Reportagem de televisão, matéria de jornal, técnico da defesa civil, engenheiro da capital, todo mundo quis entender como uma estrutura de madeira de sessenta anos tinha aguentado um volume de água que derrubou o concreto. O laudo saiu em abril: a ponte estava íntegra, com uma margem de segurança absurda, muito acima do que o projeto original indicava. O engenheiro que assinou o laudo, um gaúcho de Porto Alegre, escreveu uma frase que virou placa na entrada: esta ponte não deveria ter resistido. Alguém fez alguma coisa aqui.

A frase acendeu uma disputa antiga. Quem teria feito o quê? O Seu Domingos, lendário carpinteiro do bairro, morto em 1998, não teria assinado um serviço desses sem contar para ninguém. A prefeitura nunca aprovou reforma estrutural desde 1988. Ninguém sabia de nada. Foi a neta do Seu Domingos, a Marta, professora aposentada, quem apontou o caminho: o avô guardava tudo. Tinha um armário de madeira, trancado a chave, que ninguém nunca abriu depois da morte dele. A família tinha medo de mexer.

O armário foi aberto numa tarde de sábado, na frente de quinze pessoas. Dentro, além de ferramentas antigas e cadernos de medidas, havia uma pasta de couro com o título, escrito à mão: ponte do córrego fundo — reforço silencioso. Dentro, um projeto completo, desenhado a lápis por Seu Domingos em 1992, sem assinatura, sem protocolo, sem registro na prefeitura. Pilares de madeira de lei, cravados por baixo, com sistema de amarração em dez pontos, invisíveis a quem olhasse a ponte por cima.

O diário de obras, anexado ao projeto, contava tudo. Em 1992, Seu Domingos havia descoberto, ao trocar uma tábua, que a ponte estava com a estrutura comprometida: as estacas originais estavam podres, e uma cheia média derrubaria tudo. Ele avisou a prefeitura. Protocolou um pedido de vistoria. Esperou seis meses. O engenheiro não veio. Foi quando decidiu: reforçaria a ponte por conta própria, por baixo, aos domingos, sem contar a ninguém, para não constranger o poder público e para não assustar a comunidade.

Trabalhou dois anos. Todo domingo de madrugada, quando a cidade dormia, descia com a corda na margem, levava as peças uma por uma na canoa, e cravava as estacas de lei no leito do córrego, prego por prego, vergalhão por vergalhão. O diário registra o dia em que quase foi levado pela correnteza, o dia em que perdeu uma ferramenta cara no fundo do rio, e o dia em que terminou, em agosto de 1994, com uma anotação seca: ponte firme para os próximos cinquenta anos. Se um dia perguntarem, a resposta está embaixo dos pés.

Quando Marta leu o diário em voz alta, na porta da casa do avô, com a comunidade em volta, o silêncio foi absoluto. Depois alguém riu, alguém chorou, e a cidade inteira resolveu fazer uma coisa que nunca tinha feito: homenagear o velho. A placa da ponte foi trocada. Em vez de Córrego Fundo, passou a dizer Ponte Domingos Aparecido da Costa, carpinteiro. E abaixo: o reforço invisível que segura esta ponte desde 1994 é fruto de dois anos de trabalho silencioso. Passa por cima quem quiser. Agradece quem entende.

A prefeitura, envergonhada, decidiu fazer o projeto de restauração com base no desenho à lápis de Seu Domingos, adaptado por engenheiros e mantendo as estacas originais como patrimônio. A obra começou no ano seguinte, com a comunidade acompanhando. No dia do aniversário de cento e um anos do carpinteiro, fizeram uma festa na cabeceira da ponte, com bolo, sanfona e um discurso da bisneta. A placa nova foi mantida. A velha, a original, foi colocada no museu municipal, ao lado da pasta de couro, dos cadernos e do lápis com que ele desenhou o projeto que salvou a cidade. A resposta sempre esteve embaixo dos pés. Agora está também à vista de todos.