A estação de Vila Prata fechou em 1994, quando a linha foi desativada e os trilhos começaram a enferrujar no meio do mato. Mesmo assim, todas as manhãs às seis em ponto, Seu Genaro sobe a escada de ferro, abre a portinhola e dá corda no relógio da torre. Ninguém pediu que ele fizesse isso. Ninguém paga por isso. Ele faz desde o dia em que os trens pararam, e não pretende parar.
O relógio é antigo, inglês, de 1927, com mostrador branco e ponteiros pretos. Quando o último trem apitou na curva, quatrocentos e sessenta passageiros desceram naquele andar de cimento pela última vez. Seu Genaro, chefe da estação por trinta e um anos, entregou a chave, assinou o papel e, na manhã seguinte, às seis em ponto, subiu a escada e deu corda. A prefeitura nunca mandou parar. O tempo também não.
A rotina mudou numa terça-feira de março. Um rapaz mochileiro, de uns vinte e cinco anos, apareceu na plataforma deserta, olhou a torre, consultou o relógio de pulso, e perguntou a Seu Genaro a que horas saía o próximo trem para a capital. O velho ficou parado, passando a mão no queixo, sem saber se o rapaz era doido ou se estava fazendo piada.
Não sai mais trem nenhum daqui, filho, disse por fim. Desde 94. O rapaz olhou para a plataforma vazia, para os trilhos invadidos pelo capim, e riu de si mesmo. Depois sentou no banco de madeira, descansou a mochila e falou que tinha vindo de longe, mais longe do que a capital, para conhecer a estação de que a avó falava a vida inteira. A avó chamava Elvira. A avó tinha 96 anos e estava internada numa clínica a duzentos quilômetros dali.
Seu Genaro sentou ao lado do rapaz. Elvira, repetiu baixinho, como quem abre uma gaveta funda. Conhecia esse nome. Lembrava de uma moça pequena, de vestido verde, que embarcava no trem das sete e voltava no das seis, todos os dias, por dois anos seguidos. Trabalhava como costureira na cidade vizinha. Levava um guarda-chuva vermelho e um caderno de contabilidade que estudava no banco da plataforma, esperando a condução.
Nos últimos meses de 1993, a moça deixou de aparecer. Seu Genaro soube, pelos comentários da estação, que ela tinha se casado com um homem de outra cidade e ido embora. Antes de partir, porém, fez uma coisa que o velho nunca contou a ninguém: entregou a ele uma carta, com o pedido de que fosse guardada dentro do relógio da torre, para ser aberta somente vinte anos depois. E ela nunca voltou para buscar.
Trinta anos era tempo suficiente. Seu Genaro subiu os degraus da torre devagar, com o rapaz atrás, e abriu a portinhola do mecanismo. Atrás da engrenagem grande, onde a poeira forma uma camada de veludo cinza, estava o envelope, intacto, com o nome escrito na frente: para quem procurar. As mãos do velho tremiam tanto que o rapaz teve que abrir o envelope para ele.
A carta era curta. A moça contava que estava grávida e que a família do marido não aprovava o casamento, então ela partiria para muito longe e não voltaria. Dizia que a estação de Vila Prata tinha sido o lugar mais bonito da vida dela, e que ela deixava ali dentro, guardado no relógio, um segredo: o nome do menino que ia nascer. Se fosse menino, se chamaria Genaro, em homenagem ao chefe de estação que lhe desejava bom dia todos os dias, sem nunca falhar.
O rapaz leu na frente do velho, em voz alta, e quando chegou no próprio nome, as pernas fraquejaram. Sentou no degrau da escada, chorando, com a carta na mão. Ele era o menino da carta. A avó tinha mandado que ele conhecesse a estação, que procurasse o relógio, que perguntasse pelo chefe. Ela estava doente, com a cabecinha boa ainda, e queria ver a história fechar o círculo antes de partir.
No dia seguinte, os dois pegaram a estrada juntos, na caminhonete velha do rapaz, rumo à clínica. Seu Genaro entrou no quarto carregando um presente: o pêndulo pequeno do relógio, que ele havia substituído anos antes e guardado numa caixa. Colocou na mão de dona Elvira, costurou-se o tempo de volta, e disse a única frase que conseguiu dizer: seu trem chegou, dona Elvira. Pode descansar, que hoje eu deixei o relógio adiantado para não haver atraso.