O farol de Ponta da Serra é uma torre de dezoito metros, pintada de vermelho e branco, no fim de um caminho de pedras. O último faroleiro a morar no local foi Antenor Prates, que ocupou a casa do farol de 1968 a 1998, quando o sistema foi automatizado e ele foi aposentado à força. Antenor morreu em 2001, aos setenta e sete anos, e foi enterrado no cemitério do vilarejo, com o uniforme que usou a vida toda. Todo mundo na região conhece a história dele. Ninguém conhece o resto.
O resto começou em 2004, quando o carteiro Brito recebeu um envelope sem remetente, com o selo e o carimbo de Ponta da Serra, endereçado a uma tal de Marlene Simas, numa cidade do sul. Brito estranhou, porque ninguém enviava carta da vila havia anos. Entregou, e não pensou mais no assunto. No ano seguinte, em 12 de julho, apareceu outro envelope com a mesma letra, a de Antenor, morto havia três anos. O carteiro guardou os dois, um de cada ano, com a pulga atrás da orelha.
Uma carta por ano, sempre em 12 de julho, dia de aniversário da morte de Antenor. Os envelopes variavam de destinatário: Marlene Simas, Iracema do Amaral, Severino Prates, Bento Figueiredo, mais de trinta pessoas diferentes, em pelo menos oito cidades. Todas escritas na letra firme do faroleiro. Todas com selo, sem remetente, despachadas na agência da vila, que havia fechado em 2010 e depois reaberto como posto de correios. As cartas eram postadas por alguém vivo. Só podia ser. E esse alguém ninguém nunca viu.
O caso virou lenda. O povo dizia que o faroleiro tinha voltado, que era aparição, que era castigo. O padre deu um sermão pedindo respeito à memória do homem. A internet fez o resto: reportagem de programa de televisão, vídeo no YouTube, gente visitando o farol para ver se acontecia mais alguma coisa. As cartas continuavam chegando, imperturbáveis, uma por ano, sempre no mesmo dia, sempre para um destinatário novo, sempre na mesma letra. O carteiro Brito, já com sessenta anos, tinha um caderno com todos os envios anotados, por ano, por destinatário. Virou o guardião involuntário do mistério.
Foi uma jornalista local, a Adriana, quem resolveu investigar de verdade. Em 2023, passou uma semana na vila, pedindo para abrir uma das cartas. O carteiro recusou por ética, mas cedeu quando Adriana conseguiu permissão judicial provisória: a carta era de uma senhora que havia falecido, e a juíza achou justo esclarecer o caso. A carta dizia, em resumo, que aquele era o décimo nono envio anual, que a pessoa tinha uma dívida de gratidão com o destinatário, e que a quitação só aconteceria quando a lista de nomes terminasse. Assinava Antenor Prates, com a observação: pela mão que o conheceu.
A frase era a chave. Adriana descobriu, em cartório, que Antenor tinha um irmão mais novo, Ademir, dado como morto num acidente de barco em 1974. Só que Ademir não estava morto: embarcou clandestino num cargueiro, foi para o Rio, trabalhou em doca, envelheceu, nunca voltou. A letra das cartas era dele. Desde 1986, Ademir escrevia cartas em nome do irmão, porque o irmão havia prometido, no leito de morte, um pedido que nunca cumpriu em vida: agradecer, ano após ano, a todas as pessoas que um dia ajudaram os dois na infância pobre — quem deu comida, quem deu cobertor, quem ensinou a ler.
Antenor tinha começado a lista em 1999, como diário de gratidão. Ademir encontrou o diário numa visita clandestina ao túmulo, em 2003, e decidiu terminar a lista em nome do irmão, uma carta por ano, no dia da morte. Nunca se apresentou, nunca quis ibope, nunca revelou o segredo. Morava ainda no Rio, num quarto de pensão na zona portuária, com oitenta e um anos, e postava cada carta por intermédio de uma agência de correspondência, sem nunca pisar na vila. A última carta da lista era para uma moradora viva, de noventa e nove anos, a dona Lindalva, que ensinava as crianças a escrever no quintal.
Adriana viajou para o Rio, bateu na pensão, e encontrou o velho numa cadeira de rodas, com o diário do irmão aberto na mesa. Conversaram por quatro horas. Ademir contou tudo: a fome, a viagem clandestina, os empregos, a saudade, a vergonha que nunca deixou voltar. No fim, disse que faltavam duas cartas para a lista ficar completa. Pediu uma coisa: que Adriana entregasse as duas pessoalmente, porque ele não tinha mais perna para a viagem, e porque talvez, depois de entregar, a alma do Antenor finalmente descansasse.
A entrega foi numa tarde de dezembro, na praça da vila. A dona Lindalva, de noventa e nove anos, recebeu a carta das mãos da jornalista, com a família toda em volta. E, atrás, numa cadeira de rodas empurrada por dois bombeiros da cidade, estava Ademir, que no fim não resistiu à vontade de ver. Lindalva olhou o velho, cravou os olhos, e ficou parada. Depois falou, com a voz de professora que nunca abandonou: Ademir Prates. Você está cinco décadas atrasado na lição de casa. O velho riu e chorou ao mesmo tempo. O povo da vila aplaudiu de pé. A última carta da lista, contaram depois, estava guardada havia vinte anos na gaveta, e era essa: para a dona Lindalva, com o pedido de perdão do menino que nunca teve coragem de voltar.