Seu Nelson morava no 301 havia vinte e dois anos. Conhecia o prédio como conhecia as próprias mãos: sabia qual degrau rangia, qual vizinho brigava com a esposa às sextas, qual cachorro latia quando ouvia trovoada. Mas a mulher do 302, que se mudou em março, era um mistério que não cabia na sua lógica de porteiro aposentado.
Ela saía todas as madrugadas por volta das quatro e voltava quarenta minutos depois, sempre carregando sacolas de supermercado que pareciam pesadas. Nunca cumprimentava ninguém no elevador. Nunca recebia visitas. As luzes da varanda do 302 ficavam acesas até tarde, e de vez em quando Seu Nelson ouvia, através da parede, um som que parecia um choro baixinho, misturado com o barulho da televisão.
Seu Nelson começou a anotar tudo num caderninho de capa azul. Horário das saídas, horário das voltas, o dia em que ela chegou de táxi, o dia em que recebeu uma encomenda grande embrulhada em plástico preto. Mostrou o caderno para o sindico, que riu e disse que aposentado com tempo sobrando inventa história. Seu Nelson guardou o caderno, ofendido, e continuou anotando.
Na noite de 17 de agosto, ele decidiu descobrir de uma vez. Acordou às três e meia, sentou na poltrona ao lado da porta e esperou. Quando ouviu o elevador parar no andar, abriu a porta devagar, no instante exato em que a vizinha passava. Ela se assustou. As sacolas balançaram. E de dentro de uma delas escapou um som fino e agudo, que Seu Nelson conhecia bem.
Era um miado. E não era um miado só. Eram quatro ou cinco, misturados, abafados pelo pano. A vizinha ficou paralisada no corredor, com as sacolas nos braços, olhando para ele como quem tinha sido pega em flagrante. Ninguém falou nada por uns bons dez segundos. O elevador fechou atrás dela com um barulho metálico.
Ela contou tudo ali mesmo, encostada na porta. Trabalhava numa clínica veterinária e fazia resgate de animais abandonados por conta própria. Nas madrugadas, ia até o terreno baldio do bairro vizinho alimentar as colônias de gatos de rua. As sacolas eram ração. A encomenda embrulhada em plástico preto era uma casinha térmica que ela montava no quintal. O choro que Seu Nelson ouvia era de filhotes que ela trazia para tratar e depois doava para adoção responsável.
Ela não falava com ninguém no elevador porque estava sempre exausta. Não recebia visitas porque não tinha tempo. E as saídas às quatro da manhã eram porque era o único horário em que os gatos do terreno apareciam com segurança, antes do movimento dos carros e das pessoas. Havia catorze gatos na colônia. Ela conhecia cada um pelo nome.
Seu Nelson ficou sem palavras. Lembrou de todas as teorias que havia construído durante cinco meses, das suposições, do caderno azul, e sentiu uma vergonha que não sentia desde os tempos de escola. No dia seguinte, apareceu na porta do 302 com dois sacos de ração e uma pergunta simples: posso ajudar amanhã de madrugada?
A vizinha sorriu. Foi a primeira vez que ele viu aquela mulher sorrir. Nos meses seguintes, os dois viraram dupla: ele ficava com os filhotes doentes durante o dia, ela fazia os resgates à noite. O corredor do prédio, antes tão silencioso, passou a ter movimento. O síndico reclamou uma vez, mas desistiu quando viu metade dos moradores do andar colaborando com potes de água na varanda.
Hoje o 302 tem uma plaquinha na porta, feita à mão por Seu Nelson, que diz: lar temporário. O caderno azul continua guardado, mas agora é usado para outra coisa: anotar os nomes dos gatos que chegam, com a data em que chegam, e com uma linha em branco do lado esperando o dia em que eles vão embora para uma casa de verdade. Até hoje, a lista nunca ficou sem linha em branco. E toda vez que uma é preenchida, Seu Nelson faz uma anotação nova no fim da página: mais um que venceu.