A última partida de xadrez

Todo domingo à tarde, depois da missa, o padre Anísio atravessava a pracinha de Santa Luzia, entrava na loja de tecidos do Seu Fábio, e sentava na cadeira de vime ao lado do balcão. Em cima do caixote de madeira, o tabuleiro de xadrez ficava a semana inteira, com as peças guardadas num saquinho de veludo. A loja fechava às onze, mas o padre tinha a chave. Trocavam jogada em silêncio, tomavam café, comentavam a vida. A partida começava no domingo e terminava no domingo seguinte, uma jogada por vez, como quem conversa devagar.

Os dois se conheciam desde 1975, quando o padre chegou na cidade, recém-ordenado, e o Seu Fábio tinha trinta e dois anos, loja nova, mulher grávida. Foi numa quermesse, num tabuleiro de esquina, e nunca mais pararam. Cinquenta anos de xadrez, com anotação: cada partida era registrada num caderno, com data, resultado e uma observação em uma linha, com humor de amigo: padre deixou o bispo exposto e não reclamou. Fábio perdeu a dama e ganhou tempo. O caderno tinha quatorze volumes, guardados numa estante, e era o diário da amizade mais longa da cidade.

Tabuleiro de xadrez com peças

Em 2024, quando Fábio tinha oitenta e um anos, o médico encontrou um câncer de pâncreas em estágio avançado. Ele recebeu a notícia numa quarta-feira, sem contar para ninguém, e no domingo seguinte sentou no vime como sempre, jogou a partida como sempre, e perdeu de propósito, coisa que nunca fazia, para que o amigo ganhasse aquela rodada sem saber. Foi a décima primeira vitória seguida do padre, recorde que ele comemorou com um risinho. Fábio morreu cinco semanas depois, numa terça-feira, em casa. O tabuleiro ficou do jeito que estava: uma partida em andamento, abandonada no meio, com o peão branco promovido a rainha na jogada vinte e sete.

O padre Anísio descobriu a doença só no enterro. Ficou ao lado do caixão, sem falar, com a mão no ombro da viúva, e depois foi embora sozinho, a pé, pela rua da loja. Nunca mais tocou no tabuleiro. A família embalou o jogo e guardou na estante, com os cadernos. A loja de tecidos fechou, depois virou bazar, depois virou mercadinho, e o povo da cidade esqueceu. O padre continuou reza, missa e visita aos doentes por mais dez anos, e nunca mais jogou xadrez com ninguém. Dizia que xadrez era coisa de dois. Um só, não tem adversário nem palavra.

O padre morreu em 2034, aos oitenta e quatro anos, e ficou famoso no país inteiro por uma coisa que fez no fim da vida: passou os últimos meses visitando os presídios da região e ensinando xadrez aos internos. A história saiu no jornal, num domingo, com foto dele diante de um tabuleiro. Na reportagem, ele contou que o xadrez o tinha salvo de mil tentações, porque a vida é como o jogo: você vê o erro quando ele já aconteceu, e a diferença é que no tabuleiro você pode recomeçar. E disse que existia uma partida inacabada, de cinquenta anos, que era a única coisa que ele levava da vida para a eternidade.

A neta do Seu Fábio, Juliana, advogada, quarenta e três anos, leu a reportagem no aeroporto e voltou para Santa Luzia no fim de semana. Encontrou o tabuleiro na estante, do jeito que ficou em 2024, com as peças paradas na posição do abandono. Descobriu também, numa caixa que nunca tinha aberto, uma carta do avô, escrita três dias antes de morrer, com o título: instruções para a partida. Ele pedia que, quando o padre morresse, publicassem o tabuleiro na cidade: uma partida inacabada, aberta para quem quisesse continuar, com o padre de um lado, ele do outro, o jogo valendo mais do que qualquer resultado.

Juliana organizou tudo. Mandou fazer um tabuleiro gigante, de mais de metro, com as peças na posição exata da partida abandonada em 2024, e instalou no salão de eventos da cidade. Publicou um edital simples: quem souber jogar, venha continuar a partida. Cada jogador faz uma jogada, de um lado ou do outro, e deixa a mesa. A partida não tem dono. Os cadernos dos quatorze volumes ficaram expostos numa vitrine, aberto no último registro. A cidade se mobilizou. Gente do interior inteiro apareceu. O tabuleiro virou ponto turístico.

Dentro de um mês, o jogo terminou: empate, por repetição de posição, coisa rara. A partida dos dois amigos, que durou mais de uma década e cinquenta anos de rodadas, terminou em empate público, com plateia, aos sessenta e nove anos do começo. A prefeitura, em homenagem, criou o Festival do Xadrez de Santa Luzia, todo mês de outubro, com torneio infantil, mesas nas praças e uma regra curiosa: toda partida do festival termina com um abraço entre os competidores. O evento cresce a cada ano. E no salão principal, sobre a mesa, ficou o tabuleiro original, com as peças exatas da partida de 2024, parado no lance vinte e sete. A placa diz: aqui dois amigos jogaram por cinquenta anos sem nunca precisar de nada além de um domingo. O jogo terminou. A palavra continua.