O café da esquina abria às seis, e às seis e dez o homem de casaco cinza já estava lá. Pedia um expresso duplo, sem açúcar, sentava na mesa do canto e ficava olhando a rua pela janela.
Toda quinta-feira, quando terminava a bebida, ele deixava um envelope pardo em cima do balcão e saía sem falar nada. O dono do café, Seu Aurélio, guardava o envelope na gaveta e nunca perguntava.
Isso durou dois anos e três meses. Cinquenta e sete envelopes, todos iguais, todos com a mesma caligrafia no endereço. Seu Aurélio havia aprendido a reconhecer até o barulho da caminhada do homem na calçada.
Até aquela quinta-feira. Seis da manhã, a porta abriu, o sino tocou, mas quem entrou foi uma mulher com o mesmo casaco cinza. Ela pediu o mesmo café, sentou na mesma mesa e olhou pela mesma janela.
Seu Aurélio esperou. Ela também. Quando terminou a bebida, a mulher se levantou, deixou um envelope no balcão e disse, baixinho: ele não pôde vir hoje. E não vai poder mais.
O velho sentiu o peso das palavras. Abriu o envelope pela primeira vez em cinquenta e sete. Dentro havia uma chave pequena e um endereço escrito no verso de uma foto antiga. Na foto, dois meninos riam na porta de uma casa de campo.
Um dos meninos era o homem de casaco cinza. O outro era ele mesmo, Seu Aurélio, quarenta anos mais jovem. Ele não reconheceu a mulher, mas reconheceu a letra do endereço: era a mesma dos envelopes. E era dele.
A mulher já estava na porta quando ele perguntou quem era ela. Ela se virou, sorriu com os olhos cansados e respondeu: sou a pessoa para quem você escreveu todos esses anos. Obrigada por nunca desistir de mim, pai.